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A COP30, marcada para 10 a 21 de novembro em Belém, Brasil, é uma oportunidade crucial para destacar os impactos do clima na saúde e avançar com estratégias práticas de adaptação. Em todo o mundo, milhões já sofrem as consequências para a saúde provocadas pelo agravamento das condições climáticas, com os piores efeitos a atingirem as populações mais vulneráveis. A Médicos Sem Fronteiras (MSF) testemunha frequentemente esses impactos em primeira mão, prestando ajuda a quem enfrenta crises de saúde relacionadas com o clima. Segundo a Dra. Maria Guevara, secretária médica da MSF, aqueles que menos contribuem para as emissões de gases com efeito de estufa suportam o maior peso, pagando muitas vezes com a vida e a saúde por uma crise que não causaram.\n\nNo Brasil, os últimos dois anos mostraram a brutal realidade das alterações climáticas com chuvas intensas, inundações e deslizamentos no Rio Grande do Sul, que causaram centenas de mortes e deslocaram muitas mais pessoas. A MSF respondeu com o envio de clínicas móveis, oferecendo serviços médicos e de saúde mental em abrigos, e formando pessoal local em primeiros socorros psicológicos. Renata Reis, diretora executiva da MSF Brasil, destaca a importância de incorporar o conhecimento indígena e local nas respostas climáticas, alertando contra abordagens de cima para baixo que ignoram a sabedoria das bases e arriscam aprofundar as desigualdades. Esta abordagem é especialmente vital, pois os grupos mais afetados frequentemente não têm acesso fiável a cuidados de saúde — incluindo famílias deslocadas, zonas de conflito, comunidades rurais, pobres e povos indígenas.\n\nAs alterações climáticas agravam as desigualdades sociais e de saúde pré-existentes. Padrões meteorológicos imprevisíveis aumentam a insegurança alimentar e a propagação de doenças. A MSF lidou com as consequências de ciclones e inundações em locais como Moçambique e Madagascar, onde doenças como a malária e a dengue se espalham mais facilmente devido às chuvas irregulares. Estas doenças tornam-se mais mortais quando combinadas com a desnutrição, como se viu recentemente no norte da Nigéria. Secas prolongadas limitam o acesso à água, forçando as pessoas a meios de subsistência arriscados, como a mineração informal no Zimbabué, onde a MSF ajudou a identificar e tratar fontes de água contaminadas.\n\nPara muitas comunidades, até mesmo conselhos básicos de saúde, como manter-se hidratado, são impossíveis de seguir devido à falta de água potável segura. Inundações em áreas urbanas com sistemas de esgoto deficientes podem desencadear surtos de cólera e diarreia, como evidenciado por eventos recentes no Haiti. A Dra. Guevara aponta que estes impactos se acumulam, afetando desproporcionalmente comunidades com recursos limitados para responder eficazmente. A MSF está a ajustar as suas operações para melhor enfrentar estes desafios e apela a sistemas de deteção precoce melhorados que integrem dados meteorológicos e epidemiológicos, permitindo respostas mais rápidas e eficazes.\n\nNa COP30, os países devem comprometer-se com metas climáticas mais ambiciosas. Até agora, o progresso lento na redução das emissões agravou o aquecimento global e ameaça as condições de vida em todo o mundo. A urgência de agir não pode ser subestimada. A Dra. Guevara enfatiza a necessidade de apoio financeiro e técnico concreto para ajudar os países mais afetados a melhorar os sistemas de saúde e a resiliência. A MSF defende um foco mais forte nas perspetivas de saúde e humanitárias nas negociações climáticas, garantindo que as estratégias de adaptação sejam acessíveis a todos e não ampliem as desigualdades existentes. Os níveis atuais de financiamento para adaptação climática ficam muito aquém das necessidades reais, o que apenas aprofunda as disparidades entre nações ricas e vulneráveis.