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Adele Zeynep Walton acordou grogue numa viagem de campismo na New Forest apenas para ser confrontada com o carro dos seus pais a atravessar rapidamente o local. A princípio, pensou que a mãe e o pai estavam apenas a fazer uma visita rápida, mas a expressão no rosto da mãe disse-lhe que algo terrível tinha acontecido. Foi a sua irmã mais nova, Aimee, que tinha morrido. Aimee, com apenas 21 anos, foi encontrada morta num quarto de hotel em Berkshire num aparente suicídio. Adele recorda o choque entorpecido e a devastação que se seguiram: sentar-se com a família, chorar e tentar processar a perda.\n\nNas semanas após a morte de Aimee em outubro de 2022, o luto da família transformou-se em raiva quando a polícia revelou que ela visitava um site pró-suicídio. Este site, onde os membros se incentivam mutuamente a suicidar-se, acreditava-se ser a fonte do veneno que Aimee usou para acabar com a sua vida. A polícia suspeita que um homem chamado Kenneth Law, ligado a pelo menos 88 mortes no Reino Unido, forneceu a toxina. Law está atualmente à espera de julgamento no Canadá por homicídio e auxílio ao suicídio. Mais perturbadoramente, Aimee não estava sozinha na sua morte; estava com um homem que conheceu através do site. Embora ele tenha sido inicialmente detido sob suspeita de auxílio ao suicídio, a polícia abandonou a investigação contra ele. Adele está agora a exigir uma inquérito público sobre este site e quer que o inquérito à morte de Aimee, adiado até após o julgamento de Law, reconheça o papel crucial do dano online.\n\nAdele descreve sentir-se enojada pelo que a irmã foi exposta online. O site oferecia fóruns onde as pessoas trocavam métodos, discutiam a compra de venenos como se fosse uma transação quotidiana e até usavam eufemismos como "apanhar o autocarro" para significar suicídio. Para Adele, é difícil chamar à morte de Aimee um simples suicídio; ela acredita que Aimee foi manipulada e coagida a tomar essa decisão, sugerindo que foi mais um suicídio assistido, o que é ilegal. A sua história infelizmente não é única. Uma investigação da BBC ligou o mesmo site a pelo menos 50 mortes, e está sob escrutínio da Agência Nacional do Crime. No ano passado, um jovem de 17 anos de Southampton também tomou veneno da mesma fonte após visitar o site. A Molly Rose Foundation, nomeada em homenagem a uma rapariga que tirou a própria vida aos 14 anos após ver conteúdos de auto-mutilação, relata que a toxina está ligada a mais de 130 mortes no Reino Unido desde 2019.\n\nApesar dos esforços do governo para restringir o acesso ao abrigo da Lei de Segurança Online, o site continua acessível no Reino Unido através de nomes de domínio alternativos. A Ofcom, o regulador, admite que o problema não está totalmente resolvido, com brechas que permitem o acesso contínuo. Adele aponta que, embora este site seja o mais notório, muitos outros semelhantes existem, e os médicos legistas têm levantado preocupações aos departamentos governamentais dezenas de vezes desde 2019.\n\nA história pessoal de Aimee acrescenta uma dimensão comovente. Crescendo em Southampton com a família, ela era próxima da irmã Adele e adorava dançar, andar de skate e jogar jogos de computador. No entanto, socialmente tinha dificuldades e foi diagnosticada com TOC aos 14 anos, embora nunca tenha se envolvido totalmente na terapia. Há suspeitas de que era autista, mas nunca foi diagnosticada. Os esforços para a apoiar, incluindo encorajá-la a passar tempo com os amigos de Adele, foram infrutíferos, pois Aimee resistia a ser vista como vulnerável.\n\nO seu isolamento aprofundou-se durante os confinamentos da Covid, quando se ligava principalmente com pessoas online. Em setembro de 2021, começou a universidade a estudar tecnologia musical, mas desistiu em poucas semanas e terminou com o namorado, que tinha sido uma fonte de apoio. Depois disso, a saúde mental de Aimee deteriorou-se rapidamente. Começou a fugir de casa por longos períodos, deixando a família incerta sobre o seu paradeiro ou como se sustentava. Apesar dos melhores esforços, os pais não conseguiram obter a ajuda de que ela desesperadamente precisava.\n\nAgora, Adele canaliza a sua dor em ativismo e escreveu um livro chamado "Logging Off: The Human Cost Of Our Digital World", com o objetivo de expor os perigos do dano online e pressionar por medidas mais rigorosas para proteger pessoas vulneráveis como a sua irmã. Continua a pedir justiça e espera que a trágica história de Aimee não seja esquecida nem repetida.