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Simulações recentes revelaram uma perspetiva preocupante: nenhum satélite atualmente em órbita da Terra estaria seguro durante a próxima supertempestade solar de magnitude equivalente ao Evento Carrington. Esta revelação surge enquanto os cientistas se preparam para o lançamento do satélite Sentinel-1D da ESA, usando cenários hipotéticos para reforçar a preparação para eventos severos de clima espacial. O Evento Carrington original, observado pelo astrónomo britânico Richard Carrington em 1859, permanece como referência para atividade solar extrema. Carrington testemunhou uma enorme erupção solar de uma mancha solar aproximadamente do tamanho de Júpiter, seguida por uma tempestade geomagnética de uma semana que iluminou os céus globalmente com auroras. Este episódio histórico serve agora como aviso para o que poderia acontecer se uma tempestade de intensidade semelhante ou maior atingisse a nossa civilização moderna dependente de satélites.\n\nNo cenário simulado, uma erupção solar de magnitude X45 ocorre subitamente, libertando ondas intensas de radiação que atingem a Terra quase sem aviso. Esta radiação inicial atinge os satélites, especialmente aqueles longe do campo magnético interno protetor da Terra. Cerca de 15 horas depois, uma ejeção de massa coronal (CME) — uma enorme nuvem de plasma a viajar a mais de 7 milhões de km/h — choca contra a magnetosfera da Terra, desencadeando tempestades geomagnéticas comparáveis ao Evento Carrington. Estas tempestades expandem dramaticamente a atmosfera superior, aumentando o arrasto nos satélites em até 400%. Este aumento do arrasto atmosférico pode puxar os satélites para dentro da atmosfera, onde podem queimar ou cair, eliminando efetivamente constelações inteiras de satélites.\n\nA tripla ameaça que os satélites enfrentam inclui o surto inicial de radiação da erupção, uma onda de radiação subsequente que perturba sistemas de navegação e aumenta os riscos de colisão, e finalmente a tempestade geomagnética causada pelo inchaço da atmosfera da Terra induzido pela CME. Satélites em órbita baixa da Terra desfrutam de alguma proteção natural da atmosfera e do campo magnético terrestre, mas mesmo eles provavelmente seriam vulneráveis durante um evento tão intenso. Um vislumbre desta vulnerabilidade foi testemunhado durante uma poderosa tempestade geomagnética em maio de 2024, que causou perturbações significativas no GPS e fez com que alguns satélites saíssem de órbita, resultando em quase 500 milhões de dólares em danos para agricultores dos EUA devido a equipamentos avariados.\n\nO potencial de danos de um evento ao nível do Carrington em grande escala supera estes impactos recentes. Um estudo de 2013 estimou que tal tempestade poderia custar aos EUA até 2,6 biliões de dólares em danos, especialmente às redes elétricas. Globalmente, os custos seriam astronómicos e difíceis de compreender totalmente, dado o aumento da dependência das tecnologias satelitais. Os especialistas avisam que tal evento não é uma questão de se, mas de quando. Estatisticamente, tempestades ao nível do Carrington ocorrem aproximadamente a cada 500 anos, com cerca de 12% de probabilidade de ocorrer neste século. Como o número de satélites está projetado para aumentar dez vezes até 2050, os riscos só aumentam.\n\nExercícios de simulação como os conduzidos pela ESA são cruciais para treinar especialistas a responder eficazmente a estes cenários de pior caso. Enquanto se preparam para proteger o Sentinel-1D, os investigadores ganharam perceções sobre como as redes globais de satélites podem ser afetadas e aprenderam lições valiosas sobre estratégias de mitigação. Estes exercícios enfatizam a necessidade urgente de planos de contingência robustos para gerir os efeitos em cascata das supertempestades solares. Como nota Jorge Amaya, coordenador de modelação do clima espacial da ESA, embora não vejamos o impacto total até que tal evento ocorra, a preparação agora pode prevenir resultados catastróficos mais tarde. A ameaça crescente das supertempestades solares sublinha a importância do investimento contínuo em investigação do clima espacial, tecnologias de endurecimento de satélites e coordenação internacional para salvaguardar os ativos espaciais da humanidade.