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À medida que o mundo se prepara para a COP30, as Nações Unidas divulgaram um relatório sóbrio sobre o estado atual dos compromissos climáticos globais. De acordo com o mais recente Relatório de Síntese das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC), os planos coletivos apresentados pelos países visam apenas uma modesta redução de 10 por cento nas emissões de combustíveis fósseis até 2035, em comparação com os níveis de 2019. Esta meta fica muito aquém dos cortes mais profundos necessários para manter o aquecimento global abaixo do limite crítico de 1,5°C estabelecido no Acordo de Paris há uma década. Alarmantemente, menos de um terço dos países que inicialmente assinaram o Acordo de Paris apresentaram seus planos atualizados de ação climática, sinalizando uma falta de urgência e coordenação entre os principais atores.
Grandes emissores como a China e a União Europeia ainda não apresentaram oficialmente suas NDCs antes da cimeira, aumentando a incerteza em torno dos esforços globais. Nos Estados Unidos, a agenda climática foi lançada em turbulência; o Presidente Donald Trump não só ordenou a retirada do país do Acordo de Paris pela segunda vez este ano, como também promoveu o aumento da extração de combustíveis fósseis e reverteu iniciativas de energia renovável. Embora a administração Biden tenha submetido um plano nos seus últimos dias, Trump desconsiderou publicamente a intenção de o implementar. Sem submissões oficiais de alguns dos maiores poluidores do mundo, as perspetivas para atingir as metas climáticas parecem cada vez mais sombrias.
O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, foi direto sobre as implicações destes desenvolvimentos. Ele alertou que ultrapassar o limite de aquecimento de 1,5°C é agora inevitável, pelo menos temporariamente, e enfatizou que a comunidade internacional deve focar-se em minimizar tanto a duração como a severidade deste excesso. Guterres destacou os graves riscos colocados por ultrapassar pontos de viragem climáticos, como danos irreversíveis à floresta amazónica, às camadas de gelo da Gronelândia e aos sistemas de recifes de coral. Apelou a reduções urgentes e dramáticas das emissões para evitar transformar a Amazónia em paisagens semelhantes a savanas, um cenário que desencadearia um colapso ambiental de larga escala.
O momento da divulgação do relatório é particularmente significativo dado a recente decisão do Brasil de abrir partes da floresta amazónica à exploração petrolífera, mesmo enquanto se prepara para acolher a COP30 em Belém. Os defensores do clima expressaram frustração pelo facto de, embora a retórica política sobre ação climática tenha melhorado, o progresso tangível continue a ser evasivo. Novos projetos de combustíveis fósseis continuam a minar os ganhos modestos propostos nas NDCs atuais, com licenças de perfuração a serem emitidas a poucos quilómetros do local da COP30. Os ativistas insistem que uma liderança genuína requer uma paragem imediata da expansão dos combustíveis fósseis e uma rápida transição para fontes de energia renovável.
Especialistas apontam que, embora alguns países estejam a fazer progressos significativos, compromissos hesitantes de grandes economias como a China e a UE enfraquecem a eficácia geral dos acordos internacionais. O World Wildlife Fund e organizações como a 350.org sublinham a grande diferença entre as ambições declaradas e a implementação no mundo real. Eles enfatizam a necessidade de as nações do G20 ultrapassarem as táticas de adiamento e apresentarem planos de ação concretos que acelerem as transições para energia limpa, eliminem os combustíveis fósseis e protejam os ecossistemas naturais. As renováveis estão a crescer rapidamente em muitas regiões, satisfazendo novas demandas de eletricidade e mostrando potencial para atingir o pico da dependência dos combustíveis fósseis em breve, mas o ritmo ainda é insuficiente face à emergência climática.
O relatório também destaca uma dimensão política significativa: apesar de terem a tecnologia necessária, recursos financeiros e apoio público, muitos governos carecem da vontade política para implementar reformas significativas. Os ativistas defendem o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e a introdução de impostos sobre os seus lucros para impulsionar a transição energética. A falha em agir decisivamente arrisca perder tempo valioso e ultrapassar limiares ambientais irreversíveis. A próxima cimeira COP30 representa uma oportunidade crítica para fechar a lacuna de ambição, mas a janela para uma ação climática eficaz está a fechar-se rapidamente.